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"A alma que não se abate, que recebe indiferentemente tanto a tristeza como a alegria, vive na vida imortal."Fonte - Bhagavad-Gita

sábado, 19 de agosto de 2017

Jean-Yves Leloup: A experiência do deserto na relação


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Por que os mortos são tão pesados para carregar?...
Porque eles têm o peso de todas as palavras que não puderam dizer.
Há silêncios pesados, silêncios que não têm fim: o deserto está entre nós... A distância que nos separa parece intransponível, não adianta gritar, nem explicar; ninguém nos responde. Estamos, no entanto, sentados à mesma mesa. Todavia, não existe mais comunhão. Dormimos na mesma cama, mas não dormimos mais nos mesmos sonhos; e cada manhã,, colados um ao outro, nos encontramos cada vez mais afastados...
Entre nós há o deserto, e não é mais o belo silêncio de nossas noites estreladas, mas o frio, a ausência à flor da pele. As palavras que nos saem da boca são escorpiões mortais, e cada um envenena o outro com o veneno das suas acusações ou das suas justificações.

O que o deserto nos pode ensinar?
Que o outro é um outro e que, numa verdadeira relação, não se pode prescindir da diferenciação, quer essa diferenciação assuma as formas agressivas do conflito ou as formas mais capciosas do tédio – “o outro é um peso para mim”, resiste às nossas vontades de apropriação, não se deixa reduzir ao mesmo. Ele não é eu. Ele pensa, vive e ama “de outro jeito”, e talvez seja esta revelação que o deserto nos traz, a revelação da alteridade – o outro irredutível às minhas vontades de prazer, de posses, carnais, afetivas , intelectuais .

O deserto é um lugar de diferenciação. Não posso decepcionar-me, a não ser à medida das minhas expectativas. Eu esperava que o outro correspondesse a uma certa imagem de homem, de mulher, de casal, etc., imagem herdada de nossos pais e da sociedade. Eu amava “uma outra metade”, a metade que me faltava, sem dúvida.. Na verdade eu só me amava a mim mesmo, e agora descubro um outro que, na sua alteridade, não está mais aí para preencher as minhas carências, “tapar meu buraco”.

Ele é bastante ele mesmo ou talvez me ame bastante para me decepcionar, para não me responder como um espelho ou como um conjunto de complacências capaz de me encerrar em minhas reivindicações e frustrações infantis.

Eu me encontro, então, com “um outro inteiro”, que me força ou me convoca para a minha própria inteireza, essa inteireza que jamais se pavoneará como algo totalmente “acabado”, que sempre guardará uma sede para acolher o outro, mas não irá mais impor suas carências nem culpabilizará o outro por não preenchê-las tampouco.

A prova do deserto entre dois seres humanos conduz ao oásis de um verdadeiro encontro, encontro de duas liberdades que, além das regressões fusionais e dos impasses da separação, descobrem que são capazes de Aliança.

Mas nem todos tem a coragem de atravessar o deserto. Aos primeiros sinais do esfriamento da pulsão, às primeiras afirmações das suas diferenças, irredutíveis, ou quando começa a fase da monotonia, o tédio do dia-a-dia, os dois reclamam:”Não te amo mais”, e vão procurar, alhures, recomeçar a mesma história, beber na mesma miragem, justamente no instante em que a verdadeira fonte não estava longe, quando chega ao fim esse silêncio, essa incompreensão, quando se perdoa o outro por ser um outro e onde enfim se vai talvez poder amá-lo e cantá-lo na sua diferença.

Existem os desertos de areia e há também os desertos da ampulheta o tempo da paciência, instante após instante, descobrir o milagre que fundamenta a nossa aliança. E esse deserto, o que é que nos ensina? Ensina o não apego, a dês-apropriação do outro. 

Amar uma pessoa é renunciar a possuí-la, a fazer dela uma propriedade. Nessa renúncia nos é dada a alegria de ser, de ser-com, sem expectativas, sem cobranças, não, porém, sem lucidez, rigor e ternura.

“Vai para ti mesmo”, dizia a bem-amada ao bem-amado, no Cântico dos cânticos. Vai para o teu deserto, como vou também eu para o meu, lá, dando a volta às dunas, iremos encontrar o oásis, onde, libertados das nossas sedes, seremos o poço que aflora um para o outro

Há também, no coração da relação, o deserto do luto, luto físico ou afetivo – “falte-vos um só ser, e tudo estará despovoado”; falte-vos um só ser, e o mundo é um deserto. Quando se volta para a casa vazia, os corredores parecem não ter fim, e o quarto que ressoava com nossas risadas ou nossas discussões, tem silêncios hostis – “e aquele dos dois que resta, se encontra no inferno.... Aí também precisamos aprender que o outro não nos pertence, mas antes de poder dizer-lhe ainda “vai para ti mesmo”, “vai para a tua luz”, novamente há um longo deserto a atravessar.

O que nos ensinará a morte, senão aquilo que já aprendemos com a solidão? Saber que não existe para ninguém, não ser mais nada, ser apenas um grão de poeira no areal do tempo. E aí posso ser também tentado por miragens, tentar comunicar-me com os mortos, “transcomunicação”, mesas que giram, escritas automáticas, tudo isso, poderia, talvez, proporcionar-me algum consolo. Consolo menor, porém, que o da minha solidão aceita, assumida, pois nessa solidão se descobre talvez o milagre de uma aliança, de uma “relação-outra”, que não é mais vivida sob os modos do espaço-tempo, uma espécie de comunhão dos santos, onde as qualidades daqueles que desapareceram que desapareceu pede que continuemos encarnando sem cessar essas qualidades.

Assim, não é necessárias que eu lamente a bondade, mas preciso vivê-las ainda mais. Não me deixo mais levar pelas asas da sua presença que se desvaneceu, mas estou cada vez mais presente à terra e à vida que guarda as marcas de seu percurso, da nossa passagem comum.

Amar o outro é renunciar a possuí-lo, mesmo morto. É renunciar a que volte, descobrir que ele está sempre aí, em seu silêncio que não nos mete mais medo, em um deserto que se faz hospitaleiro para acolher tudo aquilo que temos de mais precioso, o essencial que nos resta quando nada mais nos resta.

Texto de Jean-Yves Leloup, 

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Feliz dia de Krishna


 seguir, um trecho do Capítulo II - O conhecimento transcendental:
Os ensinamentos de Krishna começam pelo verdadeiro conhecimento da alma e do corpo
Lorde Krishna disse: Você se entristece por aqueles que não são dignos da sua tristeza, mas ainda assim suas palavras trazem grãos de verdade. Elas exprimem a sabedoria do mundo exterior, mas são ainda insuficientes para satisfazer à mente interior. Os sábios, em realidade, não se deixam abater nem pelos vivos nem pelos mortos. (2.11)
Jamais houve um tempo em que todos esses reis, você, ou eu, não existíssemos; tampouco haverá algum tempo futuro em que deixaremos de existir. [1] (2.12)
Assim como a alma adquire um corpo de criança, um corpo de jovem e um corpo de velho durante sua vida, da mesma forma, a alma adquire outro corpo após a morte. Isto é muito claro para os sábios. (2.13)
Ao contato dos sentidos, as formas e objetos dão vasão a sensações de frio e calor, de dores e prazeres. Todas essas sensações são transitórias e impermanentes. Dessa forma, devemos aprender a suportá-las sem nos apegarmos a elas, ó Arjuna. (2.14)
Pois uma pessoa verdadeiramente calma e tranquila, que não se deixa afligir ou apegar por essas formas e objetos, e permanece sempre estável em meio às dores e aos prazeres, se torna apta a trilhar o caminho para a imortalidade. (2.15)
Bhagavad Gita




quarta-feira, 12 de julho de 2017

Raiz do Yoga


Nos meses de maio e junho incentivei os alunos a percorrerem uma jornada na roda do Yoga.  Foram aulas lindas de profunda conexão uma aventura interna que desbravamos juntos, rumo a consciência sagrada do despertar. Segue um resumo da práticas acompanhada pelo livro "A tradição do Yoga de Georg Feuerstein".

"Yoga não é algo que fazemos, mas aquilo que nos tornamos. "Georg Feuerstein.


Raja Yoga - O Yoga Resplandecente do Reis do Espirito
Raja yoga significa Yoga Real, isso quer dizer que a prática do controle da mente para os verdadeiros heróis. Esta prática está profundamente ligado ao tantrismo, já que o mesmo usa bandhas, principalmente o mulla bandha para elevação da energia em prol da meditação.

Jnâna Yoga - A Visão do Olho da Sabedoria
A palavra Jnâna significa conhecimento, intuição, sabedoria. Esta prática de meditação é a abertura da sua própria sabedoria interior para a realização de Si mesmo. Esse é o caminho ensinado nos Upanishads. Os princípios orientadores desta prática é; força de vontade ( iccha) e da razão inspirada ( buddhi). Principais qualidade para viver sobre Jnâna:
1-Discernimento (Viveka), ver as coisas tais quais elas são.
2-Renúncia (virâga), dedicar-se a boas obras sem esperar nenhuma recompensa.
3-Seis Perfeições ( Shat-sampatti)
3.a Tranquilidade (shama)
3.b Controle dos sentidos (dama)
3.c Interrupção ( uparati)
3.d Resignação ( titiksha)
3.e Concentração mental ( samadhana)
3.f Fé ( shraddâ)
4 O desejo de Liberação ( mumukshtva)

Bhakti Yoga - O poder Transcendente do Amor
É uma prática de devoção, a força emocional que purifica e canaliza para Deus. Existem 9 caminhos para realização em Bhakti;
1 A audição ( shravana), Escutar os nomes de Deus.
2 O cantar ( Kirtana), Cantar é a forma de recordação meditativa em Deus.
3 A Recordação ( smarana), Lembrar da fonte sagrada todo instante.
4 O serviço aos pés ( pâda - sevana), Expressar-se pelo ato de prostração ao Mestre, Guru e fazer oferenda.
5 O ritual ( arcanâ), O cumprimento dos ritos religiosos prescritos, especialmente os que giram em torno do próprio altar.
6 A prostração ( Vandana), Apenas tocar a testa no chão.
7 A devoção servil (dâsya), Servir de diversas maneira o sagrado, sendo instrumento.
8 Um sentimento de amizade ( Sâkhya), Aproximar-se na amizade sincera.
9 A oferta de si mesmo ( âtma-nivedana), Sentir Deus dentro de ti m ação.

Karma Yoga - Liberdade na Ação
Karma Yoga é literalmente o Yoga da ação, ter consciência em cada ato. Somos o que somos em consequência do que fazemos. O Mahatma Gandhi, foi u verdadeiro Karma Yogin em ação, trabalhava incansavelmente para o bem e para nação Indiana.

Mantra Yoga - O Som como Veículo de Transcendência
Meditação no som dos mantras, japa mantras de modo introverso e Kirtan extroverso.

LayaYoga - A dissolução do Universo
Ocupação total da mente na meditação, dissolver todos os vestígios de memória, todas as experiências sensoriais e aprofundar-se no vazio da alma.

Kundalini Yoga - Despertar da energia vital
Prática que visa através de técnicas de respiração, ásanas, bandhas, mantra a elevação da energia da kundalini e o despertar dos chakras.

Hatha Yoga - O cultivo de um Corpo de Diamante
Gira em torno do desenvolvimento e potencial do corpo físico em prol de estados de mega lucidez. Essa prática foi criada para facultar a manifestação da Realidade suprema no corpo e na mente humana. Neste ponto o Yoga expressa o ideal do Tantra, que é o viver no mundo a partir da plenitude da realização do Si mesmo, e não o de fugir da vida para chegar a iluminação.







quarta-feira, 17 de maio de 2017

Irina Tweedie: A trilha do amor





A trilha do amor é como uma ponte de cabelos atravessando um abismo de fogo.

Irina Tweedie, nascida na Rússia foi a sua busca espiritual com um mestre sufi e escreveu um diário de sua formação espiritual intitulado: Filha de Fogo: Um diário de um Treinamento Espiritual com um Mestre Sufi.  Algumas pensamentos: 


Quando você ama, ama profundamente outro ser humano, muito profundamente, em algum lugar você vai sentir que você ainda está sozinho, e este ser humano muito amado não tem acesso. 
Este é o lugar onde ele reservou para si. Porque você e eu e todo mundo é feito à sua imagem. 
Agora vamos relaxar e tentamos entrar neste lugar que pertence somente a ele, e ele é assim.
  A imaginação é uma coisa muito divina no ser humano, é muito útil.
Temos que imaginar para ir fundo dentro de nós mesmos.  Cada vez mais profundo e muito profundo. Temos de encontrar este lugar, onde há silêncio, paz e acima de tudo amor.  Deus é amor, o ser humano é todo o amor, só o ser humano tem esquecido há muito tempo. 

Afogar o pensamento no amor!

Dr Paul Brunton: vida e obra




A alma de Paul Brunton “trocou uma existência tranquila por uma agitada” (conforme ele dizia) em algum lugar de Londres, em 1898. Não podemos falar nada sobre a origem de sua família, sua educação e nem mesmo seu nome de nascimento, pois “PB” (como preferia ser chamado) não compartilhava esses assuntos nem com seus leitores nem com visitas. Seus vinte e oito livros oferecem pouca ajuda nesse sentido e menos encorajamento ainda a um biógrafo. Mas isso tem pouca importância em comparação com o panorama que seus livros revelam sobre a busca interior e espiritual à qual toda sua vida foi dedicada. Por esse motivo, respeitando seu próprio senso de proporção, esta introdução se baseia exclusivamente no que P. B. decidiu falar de si aos seus leitores; frequentemente incorporando suas próprias palavras.

P. B. nos conta que seus primeiros contatos com a busca vieram na adolescência através da leitura: ele menciona a inspiração que encontrou nas cartas de São Paulo; no romance ocultista Zanoni, de Bulwer-Lytton e especialmente em O Despertar da Alma (ou Hai Ebn Yokdan, o Filósofo Autodidata), de Ibun Trufail. Foi este último, um trabalho Sufi, que lhe deu a ideia geral sobre meditação, um assunto em que ele se tornaria a mais notável autoridade moderna. Sem guiança ou instrução, ele começou a praticar a meditação, tateando seu caminho no que a princípio era escuridão absoluta. Após seis meses de meditação diária e dezoito meses de aspiração ardente pelo Eu Superior, ele experimentou uma série de êxtases místicos.

O encantamento e frescor dessas iluminações vigorosas diminuíram depois de algumas semanas, mas deixaram P. B. com uma consciência contínua que carregou consigo por mais três anos. Então, P. B. encontrou um místico avançado, um americano que vivia em Londres, que o convidou a se submeter a certos testes que, se passasse, o conduziriam ao próximo degrau da iluminação. O resultado foi um fracasso e P. B., em consequência disso, entrou num estado que os místicos medievais chamavam de a Noite Escura da Alma. Por três anos ele não teve nem tempo nem capacidade para meditar ou mesmo para sustentar a aspiração.

Um acontecimento inesperado arrancou P. B. de sua depressão espiritual. Ele retomou novamente a prática de meditação, e depois de algumas semanas recuperou, numa sessão memorável, o nível de consciência que havia desfrutado antes. Mas agora era com maior conhecimento e compreensão. Ele começou a ver com clareza os padrões e os significados que estavam por detrás de sua própria vida e da vida dos demais. Compreendeu que ao longo de seus anos de escuridão a Presença espiritual nunca o havia abandonado, mas havia aguardado silenciosamente o momento em que seus próprios esforços o reuniriam a ela. Extraiu disso a grande lição da necessidade de se ter esperança e, mais que isso, sentiu-se incumbido da tarefa de comunicar isso a outros que poderiam se sentir desencorajados por seu insucesso na busca.

Anos de desenvolvimento e crescimento seguiram esta segunda iluminação. Por muitos meses, durante o ano de 1918, P. B. ouviu o que ele chama de “Verbo Interior”, compreendendo que a fonte de força e sabedoria não deveria ser buscada em nenhum lugar além do Ser interior de cada um.

Após a Primeira Guerra Mundial, P. B. morou por um período em Bloomsbury. Dividiu um apartamento com Michael Juste, o fundador da Livraria Atlantis, na mesma casa onde Virginia e Leonardo Woolf mais tarde estabeleceriam sua residência e o mesmo lugar da Editora Hogarth. Tendo sido sempre um escritor nato e até compulsivo, P. B. agora entrou no mundo do jornalismo e se tornou um revisor bem sucedido e um escritor de material publicitário de sucesso.


No final dos anos 20, P. B. iniciou uma pesquisa intensa no Oriente, levada a cabo com o apoio do Secretário de Estado para a Biblioteca da Índia. Assim amparado, iniciou sua primeira viagem ao leste. Durante os anos 30-1, viajou pela Índia, se mesclando com todas as classes e encontrando yoguis, faquires, homens e mulheres santos de todos os graus. Os dois por quem ele sentiu a mais profunda afinidade foram o Shankaracharya de Kamokoti e Sri Ramana Maharshi, o Sábio de Arunachala (que não deve ser confundido com Maharishee Mahesh Yogi). Shankaracharya, líder espiritual do Sul da Índia e o herdeiro da linhagem Vedântica, fundada pelo primeiro Shankara, nasceu em 1895. Ele foi visto em darshan público lendo os Notebooks de P. B.. Sendo líder de uma instituição pública, ele se recusou a ter P. B. como discípulo, mas lhe sugeriu que fosse para Arunachala, uma montanha sagrada no extremo sul da Índia e conhecesse um sábio que morava lá. Este era Ramana Maharshi, praticamente desconhecido naquela época, agora celebrado como um representante singular e moderno da mais pura escola Advaíta (não dualista) de filosofia e autorealização.

A busca de P. B. pelos tesouros espirituais da Índia encontrou seu clímax no encontro com Ramana Maharshi. Conforme apresenta em seu livro A Índia Secreta, ele começou então uma busca interior sob a direção do sábio. Por meio de meditação na pergunta “Quem sou Eu?”, ele descobriu que não era o corpo; nem as emoções, nem o intelecto. Finalmente, ele foi levado ao estado de ausência de pensamentos do Ser puro, que permitiu que um Eu mais elevado, insuspeito, assumisse o comando. Isso por si só foi liberdade perfeita. Na realidade, como ele nos conta bem mais tarde nos Notebooks, essa não foi uma experiência nova para P. B., mas um contato renovado com o estado que ele tinha conhecido anos antes.

Enquanto estava na Índia, P. B. contraiu malária maligna, que o debilitou por dois anos. Ao se recuperar, ele recusou as muitas ofertas de trabalho editorial e publicitário lucrativos que apareceram no seu caminho e começou a converter suas experiências indianas em um livro. Ele se estabeleceu numa vila calma no sul de Buckinghamshire. Ficou alojado em dois cômodos de uma hospedaria até que sua pequena casa fosse construída.
A Índia Secreta apresenta seu autor como sendo um pouco cético e ingênuo, mas é preciso compreender que isso foi uma atitude deliberada, adotada conscientemente para atrair leitores céticos e ingênuos dos anos 30. Ainda era a era do Império, quando o colonialismo e o movimento missionário cristão inculcaram na Inglaterra um desprezo inveterado pelo homem pardo e suas religiões. Mas aqui estava um viajante que não só testemunhou fenômenos que confundiam a ciência materialista, não somente ousou enaltecer o Islã como uma religião socialmente louvável e racional, mas que acabou sentado com profundo respeito aos pés de um iogui que vestia tanga. Para a introdução do livro, P. B. convidou Sir Francis Younghusband, co-líder da força expedicionária britânica que invadiu o Tibet em 1904 e que, agora aposentado, se dedicava à reconciliação das religiões do mundo. O livro foi recebido com entusiasmo e vendeu um quarto de milhão de cópias em várias línguas.
Em duas ocasiões distintas, depois de seu retorno da Índia, P. B. recebeu em meditação uma solene incumbência ou missão. Numa noite de verão, à margem do Tamisa, ele foi mergulhado num estado de transe profundo e entrou na presença dos Quatro Grandes Seres que zelam pelo bem estar do planeta. Uma tarefa especial lhe foi dada, que era ao mesmo tempo assustadora e exaltante. Novamente, em 1934, quando estava prestes a partir para sua segunda viagem ao leste, recebeu um apelo do sábio que tinha conhecido lá para compartilhar com os outros o seu conhecimento sobre o caminho que leva ao Eu espiritual. Colocando de lado seus preparativos para a viagem, ele respondeu escrevendo o livro O Caminho Secreto em apenas quatro semanas. Alice A. Bailey escreveu o Prefácio e o livro foi publicado em 1935.


O Caminho Secreto é um pequeno manual de meditação, um dos primeiros a surgirem no Ocidente moderno e o primeiro a explicar o método de Autoindagação como ensinado por Raman Maharshi. Aqui P. B. estabelece um de seus princípios mais firmes: independentemente de quão místico ou abstruso seja o seu material, explicá-lo sempre em inglês bom e claro. Em vão se investiga seus trabalhos pelas notas de rodapés, pelos termos não traduzidos do sânscrito, chinês e tibetano que adornam a erudita literatura e intimidam os leitores não acadêmicos. O que P. B. aprendeu no Oriente e da tradição antiga, ele apresenta como uma sabedoria viva, que é preciosa tanto para o operário de fábrica como para o professor. Este estilo de apresentação naturalmente o retirou da estima do mundo acadêmico, enquanto certos revisores abusaram nas críticas. Ele reflete sobre essa reação nos prefácios de alguns de seus livros.

P. B. iniciou sua segunda viagem com um período no Egito, onde coletou os materiais e passou pelas estranhas experiências narradas em O Egito Secreto. Este é o mais sensacional de seus trabalhos, abordando a história oculta e as origens Atlantes da civilização e monumentos egípcios, bem como a questão dos mágicos atuais. P. B. passou uma noite dentro da Grande Pirâmide. Equipado com nervos mais fortes do que a maioria de seus leitores, ele parece ter revivido o processo iniciático para o qual a Pirâmide tinha originalmente a intenção de servir. Isso demonstrava ao neófito, além de qualquer dúvida, a imortalidade de seu ser e sua máxima libertação do mundo material.

As duas “Buscas” de P. B. homenageiam as fontes gêmeas do esoterismo moderno. Por um lado, há o Egito, lar dos construtores da Pirâmide e da tradição Hermética: o Egito, que considerava como crianças os gregos antigos cujos filósofos para lá iam em busca de iniciação. A Alquimia, o Gnosticismo, a Franco Maçonaria e a tradição mágica ocidental, todos traçam suas raízes no Egito. Por outro lado, existe a Índia, tardiamente descoberta pelo Ocidente, fonte dos Vedas e do Bhagavad Gita; lar de Krishna e de Gautama o Buda. As doutrinas esotéricas da Índia tiveram atenção mais ampla no Ocidente com a Sociedade Teosófica, no final do século dezenove. Era para P.B. desmistificá-las e providenciar uma adaptação prática da yoga (o caminho de se tornar um “submetido” a Deus - a raiz da palavra é a mesma) para as pessoas comuns.

Continuando sua viagem, P. B. navegou do Egito para a Índia e novamente alcançou o ashram de Ramana Maharshi antes do fim de 1935. Um dia, ao subir o topo da montanha sagrada de Arunachala, P. B. se sentiu impelido a dirigir-se aos seus companheiros do Ocidente, que ele podia ver espiralando para baixo em direção a um materialismo sem propósitos. Sem demora escreveu a substância de um pequeno livro, que como seus posteriores Notebooks não é uma argumentação ou narrativa contínua, mas uma série de parágrafos conectados livremente. Mensagem de Arunachala é um chamado sério para o Mundo Ocidental atender sua alma. Posteriormente, P. B. arrependeu-se por o tom do livro ter sido tão negativo, mas reflete bem as nuvens que se juntavam sobre a Europa no momento de sua escrita.

No verão de 1936, P. B. fez um retiro em pequeno bangalô no alto dos Himalaias, a convite de um príncipe do Nepal. Deste retiro saiu talvez o seu livro mais belo livro, Um Heremita no Himalaia, que é repleto de seu amor pela natureza intacta e de sua afinidade com as estrelas. Aqui ele fala mais intimamente com o leitor, deixando cair a máscara que criou para as duas “Buscas” e se mostrando vivendo a vida simples e solitária que preferia, movendo-se gradualmente, como ele se expressa, “para dentro das cortes do Senhor”.


No verão seguinte foi Maharajah de Mysore quem lhe ofereceu hospitalidade e as condições favoráveis para escrever A Busca do Eu Superior. Maharajah era um soberano muito iluminado e um devoto do não dualismo Vedanta. Seu patrocínio a P. B., junto com a amizade dos Maharajahs Leitores de Filosofia, T Subrahmanya Iyer e de T.M.P. Mahadevan, Professor de Filosofia na Universidade de Madras, desmentiram os críticos indianos e orientais de P. B. que afirmavam que, escrevendo livros populares ele tinha diluído ou distorcido as doutrinas orientais. Frequentemente, o motivo por detrás de tais críticas originava-se da recusa de P. B. a endossar o guru favorito de alguém ou de emprestar sua energia a movimentos políticos. Aqueles que ensinavam e viviam a mais alta filosofia, como Ramana Maharshi, o Shankaracharya e Sri Atmananda, instintivamente o aceitaram como um dos seus. A Busca do Eu Superior é um sucessor de O Caminho Secreto, sendo um manual mais detalhado de meditação. Contém muitos exercícios designados a atrair pessoas de diferentes temperamentos e necessidades.

Foi em 1937 também, e sob o comando de Maharajah de Mysore, que P. B. fez um estudo especial dos ecos da sabedoria oriental na filosofia ocidental. Isto apareceu como Indian Philosophy and Modern Culture, um pequeno estudo que, dentre os livros de P. B., só ele não foi reimpresso por muitos anos.

O último fruto desse período indiano foi A Realidade Interna (intitulado Descoberta de Si na sua tiragem americana), escrito em 1938. O propósito específico deste livro era destinado aos Cristãos, para lhes apresentar o significado mais profundo de sua religião e para o benefício da prática da meditação. Há comentários fascinantes e originais sobre as Beatitudes, a Oração do Senhor etc., à luz da busca. É daqui que retiramos as palavras de P. B. sobre Jesus como descrito no evangelho de São João.

Em 1938, P. B. deixou o oriente para ir para os Estados Unidos, onde passou alguns meses. Da costa oeste, ele navegou de volta à Ásia, visitando a China, a Tailândia e o Camboja, antes de se instalar novamente na Índia pelo período de duração da Segunda Guerra Mundial. Foi em 1939 que ele foi às ruínas de Angkor no Camboja, outrora a base de uma civilização de alta espiritualidade que tinha mesclado o hinduísmo e o budismo harmoniosamente. P. B. foi lá, como antes tinha ido a Madame Blavatsky, para receber um certo contato através da meditação. Mas outro contato foi feito lá, físico, que seria de grande significância para ele. Esse foi com um lama mongol exilado, que era capaz de responder algumas questões metafísicas importantes. Graças à chave fornecida por esse mongol, P. B. pôde iniciar sua obra filosófica magistral.

O projeto ambicioso de um trabalho de dois volumes que explicaria em linguagem simples a mais alta filosofia e suas práticas concomitantes foi mais tarde, para o pesar de P. B., divido em dois livros separados, A Sabedoria Oculta Além da Ioga e A Sabedoria do Eu Superior. Muitos que haviam apreciado seus escritos anteriores ficaram desapontados com esses, por serem, francamente, leituras difíceis. Aqueles que persistiram aprenderam que além das gratificações da devoção religiosa, além dos êxtases do misticismo, jaz o reino da Filosofia verdadeira, um termo para o qual P. B. recuperou seu sentido nobre de “amor à sabedoria”. Ele explica por que não é suficiente ter experiências psíquicas ou mesmo espirituais: é preciso entender o que se experiencia, ou então corre-se o risco de autoengano, de desequilíbrio, ou de dogmatismo para o qual o misticismo não é a cura – de fato, é o que tem acontecido frequentemente com os psíquicos e com os místicos. A “sabedoria oculta além da ioga” é a sabedoria que sabe por que alguém pratica ioga (ou meditação, pois P. B. quase nunca se interessa pela Hatha Yoga, ou ioga física). É a sabedoria cosmológica que sabe como o mundo vem a ser; como nós o percebemos e por que o mundo é como é.


O primeiro volume, A Sabedoria Oculta Além da Ioga, dirige o leitor passo a passo à admissão de que o mundo material como normalmente é concebido simplesmente não pode existir. O segundo volume, A Sabedoria do Eu Superior, oferece a solução desse impasse ao adotar uma filosofia puramente “mentalista”. Explica como todo o nosso mundo é projetado pelas nossas mentes e como o grande mundo externo a nós é projetado como um pensamento da Mente-do-Mundo. É uma proeza de rara ordem ter exposto esta doutrina sutil e revolucionária sem jargão e sem o exagero de termos difíceis. P. B. reduz a incontrolável riqueza da filosofia oriental a poucos conceitos monumentais, dos quais os mais importantes são os seguintes: o Ego, o ser ilusório e separado que cada um de nós pensa ser; o Eu Superior, que é a nossa realidade divina; a Mente do Mundo, criadora de todos os universos; a própria Mente, o fundamento silencioso e não manifesto de todo o ser.

É impossível transmitir adequadamente a majestade de A Sabedoria do Eu Superior; a pungência de seus capítulos sobre o sofrimento, a morte e da então atual guerra mundial; o valor supremo dos exercícios práticos de ioga mental, que não são encontrados em nenhum outro lugar da literatura ocidental. Acima de tudo, há o efeito transformativo de sua filosofia, como água dada a quem está morrendo de sede no deserto da pseudo-filosofia moderna.

P. B. terminou o livro A Sabedoria do Eu Superior em dezembro de 1942. Ele tinha escrito dez livros em menos de dez anos e agora estava tão silencioso que foram publicadas notícias sobre sua morte. Ele saiu da Índia no fim da guerra e suas viagens subsequentes o levaram novamente ao redor do mundo, apesar de não podermos traçá-las mais exatamente. Um homem como P. B. nunca está inativo, mesmo que possa passar um ou mais anos sem ser visto fazer coisa alguma, além de comer um pouco e dormir menos. A busca continua em reinos que não podemos imaginar, e o fardo de ajudar a humanidade, uma vez aceito, pode tomar formas estranhas e internas.

Em 1952 ele quebrou seu silêncio, publicando A Crise Espiritual do Homem. Este foi o primeiro livro desde A Índia Secreta que ele conseguiu escrever com folga e os Notebooks contêm centenas de parágrafos adicionais que certamente vêm desse período. A “crise espiritual” do título é redutível à pergunta: A raça humana vai aprender sua lição de duas guerras mundiais ou pela ignorância vai mergulhar num terceiro desastre ainda mais terrível? O livro é uma reflexão sobre as consequencias espirituais da Segunda Guerra Mundial e da única direção onde existe esperança para o futuro: aquela do retorno da humanidade aos princípios morais e espirituais. Mais que isso, é um trabalho de inspiração para o indivíduo que colocou os pés no caminho do retorno, mas está obrigado a viver entre aqueles que o ignoram ou o recusam.

A Crise Espiritual do Homem foi o último livro que P. B. publicou em vida. No ano seguinte, 1953, ele próprio entrou em uma crise. Pegou uma doença tropical, contraída no oriente distante, que ameaçou terminar fatalmente. Entrando em um estado de coma, ele encontrou a figura astral de um Mestre muito conhecido e muito amado, que lhe deu a escolha entre deixar o seu corpo naquele momento e naquele lugar ou recuperar-se e continuar sua vida terrena para o benefício de seus companheiros humanos. De pena daqueles que nele buscavam ajuda, P. B. relutantemente decidiu retornar e completar sua missão.

Sempre destinado a ser um andarilho, P. B. continuou viajando. Esteve na Nova Zelândia por dois anos; passou tempos na Austrália e nos Estados Unidos. Ele constantemente recusava convites que o colocassem como uma figura pública, ou mesmo que o tornassem o foco de um de ashram particular como fora Ramana Maharshi. Mais tarde ele se estabeleceu na Suíça, vivendo principalmente às margens do Lago de Lugano e do Lago de Genebra. Valorizava sua solitude e a protegia das importunações dos bem intencionados e dos meio loucos igualmente, mantendo apenas um endereço postal. Ocasionalmente consentia dar entrevistas, mas somente sob a condição de o interessado não esperar encontrar nele um guru. Fazer as comprar e cozinhar para si, enfrentando os rigores do inverno alpino – isso se tornou crescentemente penoso quando ele se aproximou dos oitenta anos. Nos seus últimos anos, os amigos asseguraram que ele sempre tivesse um assistente à mão para cuidar das tarefas domésticas e escrever cartas para ele.

Um pouco do que P. B. tinha feito durante seus anos de silêncio emergiu quando foi percebido que ele tinha escrito umas sete mil páginas de anotações, junto com mais três mil páginas de material de pesquisa relativo, deliberadamente guardadas para publicação póstuma. Aparentemente, P. B. quase não passou um dia sem escrever alguma coisa, em obediência à sua profissão escolhida e a seu hábito de vida. Mas longe de ser um discurso conectado ou um tratado, essas anotações pareciam ter sido feitas aleatoriamente, em cada assunto concebível. Elas variavam de sentenças simples a parágrafos substanciais, havia também uns poucos ensaios de uma página ou um pouco mais longos. Em total contraste com sua natureza física – por que eram frequentemente escritas em minúsculos pedaços de papel ou em cadernos pautados baratos – as anotações apresentavam um aprofundamento da filosofia que tinha sido exposta nos livros publicados, refletindo mudanças muito consideráveis pelas quais P. B. tinha passado desde seu silêncio.

Quando uns poucos amigos de P. B. souberam da existência desse material, preocuparam-se para que ele não se perdesse, além da grande vontade de ler o que P. B. vagamente dizia ser seu “Resumo” Um grupo de americanos que havia sido apresentado ao seu trabalho por Anthony Damiani, o fundador do Centro de Filosofia Wisdom’s Goldenrod, recebeu a permissão de iniciar a digitação e a seleção dessas anotações com vistas a sua publicação posterior. Quando P. B. morreu, no dia 27 de julho de 1981, ele tinha estabelecido vinte e oito categorias sob as quais o material deveria ser classificado. Os manuscritos foram transferidos para Valois, no Lago Seneca, em Nova Iorque, onde um trabalho intenso foi realizado com eles. Uma coleção de ensaios, aparentemente datando dos anos 40 e 50, foi publicada em 1984 como Essays on the Quest (Ensaios sobre a Busca), e no mesmo ano o primeiro volume dos Notebooks apareceu com o título Ideias em Perspectiva, impresso pela Larson Publications. A devoção absoluta de apenas uma dúzia de pessoas e seus financiadores permitiram que as séries dos Notebooks fossem publicadas numa rapidez sem precedentes, com o décimo sexto e último livro aparecendo em 1989.


Paul Brunton foi um sábio: um homem iluminado ou liberado; ou um jivan mukti, se alguém preferir a precisão do termo hindu. Observe, no entanto, que a reivindicação é nossa, não dele. Não é falsa modéstia que o faz se afastar cuidadosamente de afirmar sua própria iluminação, enquanto escrevia com clareza sem precedentes sobre o estado de consciência do homem que atingiu o objetivo de busca humana. É inerente à própria coisa que faz de um homem um sábio: que ele tenha banido seu ego permanentemente e não tenha mais nenhum senso de identidade pessoal além do que ele possa assumir por conveniência ou cortesia. Ele vive em união com o Eu Superior, que nunca atingiu iluminação pela simples razão de que sua essência interna é iluminação. Partindo desse ponto de vista, ele está descrevendo um processo e um estado sobre os quais ele não tem nenhum senso de posse. O conhecimento que isso também é o destino de cada um de nós parece ser tão essencial quanto qualquer coisa que possa ser compreendida pela leitura. http://paulbruntondailynote.se/page3.php?setLang=pt

Bom Estudo
Lu Perez