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"A alma que não se abate, que recebe indiferentemente tanto a tristeza como a alegria, vive na vida imortal."Fonte - Bhagavad-Gita

domingo, 5 de novembro de 2017

Jñana Yoga


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Jñana-yoga é a yoga do conhecimento — não o conhecimento no sentido intelectual — mas o conhecimento de Brahman e do Atman e a realização de sua unidade. Enquanto o devoto que pratica o caminho do bhakti-yoga segue os apelos de seu coração, o jñani usa os poderes da mente para discriminar entre o real e o irreal, o permanente e o transitório.

Os jñanis, seguidores da vedanta não-dualista ou advaita vedanta, podem também ser chamados de monistas, pois afirmam a realidade única de Brahman. Certamente todos os seguidores da vedanta são monistas: todos os vedantistas afirmam a realidade única de Brahman. 

A diferença aqui reside na prática espiritual: enquanto todos os vedantistas são filosoficamente monistas, na prática, aqueles que são devotos de Deus preferem pensar em Deus distintos de si mesmos a fim de desfrutar da doçura de uma relação. 

Os jñanis, por outro lado, sabem que toda dualidade é ignorância. Não é necessário buscar a divindade fora de nós: nós mesmos já somos divinos.

O que nos impede de conhecer nossa verdadeira natureza e a natureza do mundo em nossa volta? O véu de maya. A jñana-yoga é o processo de desvelar completamente esse véu, rasgando-o por uma dupla abordagem.

A primeira parte da abordagem é negativa, o processo de neti, neti – isso não, isso não. Tudo o que irreal – isto é, impermanente, imperfeito, sujeito a mudança – é rejeitado. A segunda parte é positiva: tudo o que é entendido como perfeito, eterno, imutável – é aceito como real no sentido mais elevado.

Estaremos dizendo que o universo que percebemos é irreal? Sim e não. No sentido absoluto, é irreal. O universo e nossa percepção dele têm apenas uma realidade condicional, não definitiva. Voltando à nossa referência anterior à corda e à cobra: a corda, isto é, Brahman, é percebida como uma cobra, isto é, o universo tal como o percebemos. Enquanto estamos vendo a cobra, ela tem uma realidade condicional. Nossos corações palpitam em reação à nossa percepção. Quando vemos a “cobra” pelo que ela é, rimos de nossa ilusão.

Da mesma forma, tudo o que apreendemos por nossos sentidos, nossas mentes, nossos intelectos, é inerentemente limitado pela própria natureza de nossos corpos e mentes. Brahman é infinito; não pode ser limitado. Portanto, este universo de mudanças – de espaço, tempo e causação – não pode ser o infinito e onipresente Brahman. 

Nossas mentes estão restringidas por todas as condições possíveis; seja o que for que a mente e o intelecto apreendem não pode ser a infinita plenitude de Brahman. Brahman deve estar além do que a mente normal pode compreender; conforme declaram os Upanishads, Brahman está “além do alcance da fala e da mente”.

Ainda assim, o que percebemos não pode ser diferente de Brahman. Brahman é infinito, onipresente e eterno. Não pode haver dois infinitos; o que vemos a todo momento só pode ser Brahman; qualquer limitação vem somente de nossa percepção equivocada. Os jñanis vigorosamente removem essa percepção equivocada pelo processo negativo do discernimento entre o real e o irreal e pela abordagem positiva da Auto-afirmação.

Na auto-afirmação, continuamente afirmamos o que é real em nós mesmos: não somos limitados a um pequeno corpo físico; não somos limitados por nossas mentes individuais. Somos Espírito. Nunca nascemos; nunca morreremos. Somos puros, perfeitos, eternos e livres. Essa é a grande verdade a respeito de nosso ser.

A filosofia subjacente à Auto-afirmação é simples: você se torna o que você pensa. Temos nos programado por milhares de vidas para pensar que somos limitados, insignificantes, fracos e impotentes. Que mentira horrível e medonha é essa e quão incrivelmente autodestrutiva! É o pior veneno que podemos ingerir. Se pensamos que somos fracos, agiremos de acordo. Se pensamos que somos impotentes pecadores, sem dúvida agiremos de acordo. Se pensamos que somos Espírito – puros, perfeitos, livres – também agiremos de acordo.

Da mesma maneira que por inúmeras vezes martelamos os pensamentos errados em nossas mentes e criamos as impressões erradas, devemos reverter o processo martelando em nossos cérebros os pensamentos certos – pensamentos de pureza, pensamentos de força, pensamentos de verdade. Como declara o Ashtavakra Samhita, um texto advaita clássico: “Sou sem mácula, tranquilo, pura consciência, e além da natureza. Todo esse tempo fui enganado por ilusões.”

A jñana-yoga faz uso de nossos consideráveis poderes mentais para por fim ao processo de engano, para saber que somos já agora – e sempre fomos – livres, perfeitos, infinitos e imortais. Ao realizar isso, reconheceremos também nos outros a mesma divindade, a mesma pureza e perfeição. Não mais confinados às dolorosas limitações do “eu” e “meu”, veremos o único Brahman em todos os lugares e em todas as coisas. ( site Vedanta)

Namastê Lu Perez

Raja Yoga


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Raja-yoga é o caminho real da meditação. Assim como um rei controla o seu reino, podemos nós também manter controle sobre o nosso “reino” – o vasto território da mente. 

Na raja-yoga, usamos nossos poderes mentais para realizar e conhecer o Atman, por meio de um processo de controle psicológico.
A premissa básica da raja-yoga é que a nossa percepção direta do Ser está obscurecida pelas perturbações mentais. Se a mente puder ser mantida em estado calmo e puro, o Ser brilhará automaticamente, instantaneamente. Como diz o Bhagavad Gita:
Quando, por meio da prática da yoga,
A mente cessar os seus movimentos inquietos
E tornar-se calma
O aspirante espiritual realizará o Atman.

Se pudermos imaginar um lago açoitado pelas ondas, contaminado pela poluição, tornado lamacento pelos turistas e turbulento pelos barcos, poderemos entender qual é o estado usual da mente, na maioria das pessoas.

Se alguém tiver dúvida disso, que essa alma intrépida sente-se calmamente por alguns minutos e pense sobre o Atman. O que acontecerá? Milhares de pensamentos diferentes nos atacam, todos eles levando a mente para baixo. 

A mosca que voa nas redondezas torna-se repentinamente muito importante. Talvez surja o pensamento sobre o jantar. Não nos lembramos onde deixamos as chaves. A discussão fervorosa que tivemos ontem torna-se ainda mais poderosa; assim é o repertório que compusemos durante a nossa “meditação”. 

No mesmo momento em que deixamos um pensamento, outro pula sobre nós com a mesma força. Se não fosse tão trágico, seria até engraçado.

Na maior parte do tempo, não estamos conscientes dos movimentos mentais erráticos, pois estamos habituados a “soltar as rédeas” de nossa mente: nunca nos preocupamos em observá-la, muito menos em controlá-la. 

Da mesma maneira que pais indisciplinados criam filhos cuja companhia todos evitam; da mesma forma, nossa falta de disciplina mental criou uma mente turbulenta, má-comportada e que nos traz dificuldades sem fim. 

Sem a disciplina psicológica, a mente torna-se igual a um macaco selvagem. E todos nós, é triste afirmar, já sofremos na vida muita agonia mental por causa disso.

Enquanto podemos ter nos acostumado a viver com uma mente descontrolada, nunca devemos assumir que esse estado é aceitável, nem inevitável. A Vedanta diz que podemos controlar a mente, e que, pela prática constante, podemos torná-la nossa serva em vez de sermos suas vítimas.

Agora, ao invés do lago poluído que imaginamos anteriormente, pense em um lago bonito e límpido. Nenhuma onda, nem poluição, nem turistas, nem barcos. Ele está transparente como um vidro: calmo, quieto, tranquilo. Olhando para o fundo, através das águas cristalinas, podemos ver claramente o fundo do lago. 

O fundo do lago, metaforicamente falando, é o Atman que reside no fundo dos nossos corações. Quando a mente torna-se pura e calma, o Ser não permanece escondido de nossa vista. E a Vedanta diz que essa mente pode ser sua.

Mas como? Citemos novamente do Bhagavad Gita:
Pacientemente, pouco a pouco, os aspirantes espirituais devem se libertar de todas as distrações mentais, com a ajuda da vontade inteligente. Devem fixar suas mentes no Atman e não pensar em mais nada. Não importa por onde anda a mente inquieta, ela deve ser trazida de volta e submetida somente ao Atman.

A mente pode ser purificada e tranquilizada por meio da prática repetida de meditação, e da prática das virtudes morais.

Deixando de lado a sabedoria popular, é impossível praticar meditação sem praticar virtudes morais, lado a lado. Tentar de outra forma será tão efetivo quanto navegar no oceano com um barco de casco furado.

Para realizar essa tarefa hercúlea de conhecer o Atman, todas as áreas mentais devem ser totalmente engajadas. Não podemos compartimentar nossas vidas e assumir que podemos ter ambos: uma área “secular” (na qual podemos viver como desejamos), e uma área “espiritual”. Assim como não podemos cruzar o oceano com o barco de casco furado, não podemos cruzar o mesmo oceano com as duas pernas em dois barcos diferentes. Devemos integrar completamente todos os aspectos da vida e direcionar todas as energias para a grande meta, que é única.

Isso não significa que, para realizar Deus, a pessoa deva renunciar o mundo completamente e viver numa caverna, num mosteiro ou num convento. O que realmente importa é que todos os aspectos de nossas vidas sejam espiritualizados, de forma a poderem ser direcionados na obtenção da meta espiritual, que é a realização de Deus.

Uma vez que a raja-yoga é o caminho da meditação, ela é – quando praticada exclusivamente – seguida por aqueles que levam vidas contemplativas. A maioria de nós nunca se enquadrará nessa categoria. 

A raja-yoga é, entretanto, um componente essencial de todos os outros caminhos espirituais, pois a meditação está incluída na absorção de amor por Deus, no discernimento da razão, e é parte essencial para balancear as ações abnegadas.

Um mestre espiritual genuíno acende a chama da espiritualidade contida no estudante, pelo poder de suas próprias realizações interiores. Diríamos que a vela do estudante é acesa pela chama do mestre. Nossas velas não podem ser acesas por livros, assim como também não podem ser acesas por mestres desqualificados, que falam de religião mas não vivem o que pregam. 

Levando tudo isso em conta, algumas instruções básicas podem ser dadas: qualquer conceito de Deus – seja com forma ou sem forma – que nos agrada é bom e útil. Podemos pensar que Deus existe tanto fora quanto dentro de nós. 

Sri Ramakrishna, no entanto, recomendou que meditássemos em nosso interior, dizendo: “O coração é um lugar esplêndido para se meditar”. A repetição de qualquer nome de Deus que nos agrade é boa, assim como é benéfica a repetição da sílaba “Om”. É muito bom e aconselhável ter um período regular e diário para meditação, de forma a criar o hábito; na mesma linha, é uma grande ajuda à meditação ter um lugar constante para as práticas, que seja calmo, limpo e tranquilo. 
https://www.vedanta.org.br/yoga


Namastê
Lu Perez

Karma Yoga

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Karma yoga é o yoga da ação ou trabalho; especificamente, karma-yoga é o caminho do trabalho consagrado: é a renúncia aos resultados de nossas ações ao realizá-las como uma oferenda espiritual, em vez de acumular os resultados das ações para nós mesmos.

Como já mencionamos antes, karma é a ação e o resultado da ação. Aquilo que vivenciamos hoje é o resultado do nosso karma – bom e mau – criado por nossas ações anteriores. Essa corrente de causa e feito que nós mesmos criamos pode ser quebrada pela karma-yoga : combatendo o fogo com o fogo, usamos a espada da karma-yoga para interromper a reação encadeada de causa e efeito. 

Desvinculando o ego do processo de trabalho pelo oferecimento dos resultados a um poder mais alto – seja um Deus pessoal ou ao Ser interno – interrompemos todo o processo, que cresce como uma bola de neve.

Tenhamos ou não essa percepção, todos nós agimos todo o tempo, visto que até mesmo sentar e pensar são ações. Uma vez que a ação é inevitável, é parte integral de estar vivo, precisamos reorientá-la para um caminho que leve à realização de Deus. Como lemos no Bhagavad Gita, uma das mais sagradas escrituras do hinduísmo:
Qualquer que seja a sua ação,
Alimento ou adoração;
Qualquer que seja o presente
Que você dê a alguém;
O que quer que você prometa
Ao trabalho do espírito…
Coloque  isso também
Como oferendas diante de Mim.

Todos nós temos a tendência de agir com expectativas em nossas mentes: trabalhamos duro em nossos empregos para conseguir o respeito e apreciação de nossos colegas e promoções por parte do patrão. Limpamos nossos jardins e os deixamos adoráveis com a esperança de que nossos vizinhos os apreciem, se não ficarem decididamente invejosos. 

Trabalhamos duro na escola para alcançar boas notas, prevendo que isso nos trará um bom futuro. Preparamos uma esplêndida refeição com a expectativa de que será recebida com aplausos e elogios. 

Vestimo-nos com capricho esperando a apreciação de alguém. Uma parte tão grande das nossas vidas é dispendida na expectativa de resultados futuros que isso acaba sendo feito automaticamente, inconscientemente.

Esse, entretanto, é um padrão perigoso. De um ponto de vista espiritual, todas essas expectativas e antecipações são como cavalos de Tróia que, cedo ou tarde, nos trarão sofrimento. O sofrimento é inevitável porque nossas expectativas e desejos são intermináveis e insaciáveis. Viveremos de desapontamento em desapontamento pois nossa motivação é satisfazer e engrandecer o ego; ao invés de quebrar os grilhões do karma, estamos forjando novas correntes.

Seja qual for o nosso temperamento, devocional, intelectual ou meditativo, a karma-yoga pode facilmente ser praticada em conjunto com os outros caminhos espirituais. Mesmo aqueles que levam uma vida predominantemente meditativa se beneficiam da karma- yoga, pois os pensamentos podem produzir amarras tão efetivas quanto as ações físicas.

Assim, como os devotos oferecem flores e incenso em sua amorosa adoração a Deus, as ações e pensamentos também podem ser oferecidos como uma adoração divina. Sabendo que o Senhor existe nos corações de todas as criaturas, os devotos podem e devem adorar a Deus servindo a todos os seres como manifestações vivas de Deus. 

Parafraseando Jesus: aquilo que fazemos pelo último de nossos irmãos e irmãs, fazemos para o próprio Senhor. Diz o Bhagavad Gita :”Um yogi vê a Mim em todas as coisas, e todas as coisas em Mim.” O mais elevado de todos os yogis, continua o Gita, é aquele “que se inflama com a felicidade e sofre a tristeza de cada criatura” dentro do seu próprio coração.

Os jñanis(aspirantes seguindo pelo caminho do discernimento ou da razão) tomam uma posição diferente mas igualmente efetiva. Eles sabem que embora o corpo e a mente realizem ações, na verdade eles mesmos não trabalham de modo algum. No meio de intensa atividade, os jñanis repousam na profunda quietude do Atman. Mantendo a atitude de uma testemunha, eles recordam continuamente que não são nem o corpo, nem a mente. Eles sabem que o Atman não está sujeito à fadiga, à ansiedade ou ao excitamento; puro, perfeito e livre, o Atman não tem luta pela qual se engajar, nem objetivo para alcançar.

O objetivo de todas as yogas é espiritualizar toda a nossa vida, em vez de compartimentalizar nossos dias em zonas “secular” e “ espiritual”. Com relação a isso, a karma-yoga é particularmente efetiva, já que não nos deixa usar a atividade como um escape. Por insistir que a própria vida pode ser sagrada, a karma-yoga nos dá as ferramentas da vida diária para talhar nosso caminho rumo à liberdade. Citando novamente o Bhagavad Gita com relação à karma-yoga: Assim você se livrará dos bons e dos maus efeitos de suas ações. Ofereça tudo a Mim. Se seu coração está unido a Mim, você se verá livre do karma nesta mesma vida, e vem para Mim ao final.
https://www.vedanta.org.br/yoga


Namastê
Lu Perez

sábado, 21 de outubro de 2017

Bhakti-yoga - O caminho do Amor (Ramakrishna Vedanta)



Bhakti-yoga

Para  pessoas mais emocionais que intelectuais recomenda-se a bhakti-yoga. Esse é o caminho da devoção, o método de alcançar Deus por meio do amor e da carinhosa lembrança de Deus. A  maior parte das religiões enfatiza esse caminho espiritual, porque é o mais natural. Como as outras yogas, a meta do bhakta, ou devoto de Deus, é  alcançar a realização de Deus – a unidade com o Divino.  O bhakta consegue isso por meio da força do amor, aquela que entre as emoções é a mais poderosa e irresistível.  O amor é acessível a todos: todos nós amamos alguém ou alguma coisa, frequentemente com grande intensidade. O amor nos faz esquecer de nós mesmos, sendo toda nossa atenção devotada ao objeto da nossa adoração. O ego afrouxa sua pressão quando pensamos no bem-estar do nosso amado mais que no nosso próprio bem estar. O amor  nos dá concentração: mesmo contra a nossa vontade; constantemente nos lembramos do objeto do nosso amor. De forma fácil e totalmente indolor, o amor cria as pré-condições necessárias para uma frutífera vida espiritual.
A Vedanta  então diz:  não desperdice o poder do amor. Use essa poderosa força para a realização de Deus. Devemos nos lembrar que quando amamos  outra pessoa realmente respondemos – embora inconscientemente –  à divindade que está no interior dele/a.  Quando lemos nos Upanishads: “Não é  por causa do marido que  ele  é amado, mas pelo Ser.  Não é por causa  da esposa que a esposa é  amada, mas por causa do Ser.” Nosso amor pelos outros torna-se inegoísta  e sem motivação quando somos capazes de encontrar neles a divindade.
Infelizmente, muitas vezes dispomos mal do nosso amor. Projetamos nossa visão daquilo que é verdadeiro, perfeito e  bonito, e a sobrepomos sobre a  coisa ou a pessoa que amamos.  Contudo,  somente Deus  é Verdadeiro, Perfeito e a própria Beleza. A Vedanta então diz:   Coloque  ênfase novamente onde ela  deve ser colocada – no Ser divino que está  no interior de cada pessoa que encontramos. Esse é o verdadeiro objeto do nosso amor.
Antes de ficar obcecado por um ser humano limitado, devemos pensar em Deus com o coração saudoso. Muitos mestres espirituais recomendaram adotar uma particular atitude  de devoção para com Deus: pensar Nele como seu mestre, pai, mãe, amigo, filho ou bem-amado. O fator determinante é saber qual atitude é mais natural para nós,  e qual  atitude  nos aproxima de Deus.
Jesus  via Deus como seu Pai no Céu. Ramakrishna adorava-O como Mãe. Muitos grandes santos atingiram a perfeição adorando a Divindade como menino Jesus ou menino Krishna, como seu bem-amado. Outros alcançaram a perfeição adorando Deus como seu mestre ou amigo.
O ponto principal a ser lembrado é que Deus nos pertence: Ele é o mais próximo dos próximos, o mais querido dos queridos. Quanto mais nossas mentes são absorvidas em  pensamentos sobre Ele, mais perto estaremos de alcançar a meta da vida humana, a realização de Deus.
Muitos são levados a adorar Deus pelo amor e pela devoção. Já outros aspirantes espirituais, porém, são motivados mais pela razão que pelo amor; para eles, a bhakti-yoga “descasca a cortiça” de uma errônea árvore espiritual. Aqueles que são dotados de um intelecto poderoso e possuem capacidade aguçada de discernimento podem se adequar melhor no caminho da jñana yoga, lutando pela perfeição  por meio do  poder da razão.


sábado, 19 de agosto de 2017

Jean-Yves Leloup: A experiência do deserto na relação


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Por que os mortos são tão pesados para carregar?...
Porque eles têm o peso de todas as palavras que não puderam dizer.
Há silêncios pesados, silêncios que não têm fim: o deserto está entre nós... A distância que nos separa parece intransponível, não adianta gritar, nem explicar; ninguém nos responde. Estamos, no entanto, sentados à mesma mesa. Todavia, não existe mais comunhão. Dormimos na mesma cama, mas não dormimos mais nos mesmos sonhos; e cada manhã,, colados um ao outro, nos encontramos cada vez mais afastados...
Entre nós há o deserto, e não é mais o belo silêncio de nossas noites estreladas, mas o frio, a ausência à flor da pele. As palavras que nos saem da boca são escorpiões mortais, e cada um envenena o outro com o veneno das suas acusações ou das suas justificações.

O que o deserto nos pode ensinar?
Que o outro é um outro e que, numa verdadeira relação, não se pode prescindir da diferenciação, quer essa diferenciação assuma as formas agressivas do conflito ou as formas mais capciosas do tédio – “o outro é um peso para mim”, resiste às nossas vontades de apropriação, não se deixa reduzir ao mesmo. Ele não é eu. Ele pensa, vive e ama “de outro jeito”, e talvez seja esta revelação que o deserto nos traz, a revelação da alteridade – o outro irredutível às minhas vontades de prazer, de posses, carnais, afetivas , intelectuais .

O deserto é um lugar de diferenciação. Não posso decepcionar-me, a não ser à medida das minhas expectativas. Eu esperava que o outro correspondesse a uma certa imagem de homem, de mulher, de casal, etc., imagem herdada de nossos pais e da sociedade. Eu amava “uma outra metade”, a metade que me faltava, sem dúvida.. Na verdade eu só me amava a mim mesmo, e agora descubro um outro que, na sua alteridade, não está mais aí para preencher as minhas carências, “tapar meu buraco”.

Ele é bastante ele mesmo ou talvez me ame bastante para me decepcionar, para não me responder como um espelho ou como um conjunto de complacências capaz de me encerrar em minhas reivindicações e frustrações infantis.

Eu me encontro, então, com “um outro inteiro”, que me força ou me convoca para a minha própria inteireza, essa inteireza que jamais se pavoneará como algo totalmente “acabado”, que sempre guardará uma sede para acolher o outro, mas não irá mais impor suas carências nem culpabilizará o outro por não preenchê-las tampouco.

A prova do deserto entre dois seres humanos conduz ao oásis de um verdadeiro encontro, encontro de duas liberdades que, além das regressões fusionais e dos impasses da separação, descobrem que são capazes de Aliança.

Mas nem todos tem a coragem de atravessar o deserto. Aos primeiros sinais do esfriamento da pulsão, às primeiras afirmações das suas diferenças, irredutíveis, ou quando começa a fase da monotonia, o tédio do dia-a-dia, os dois reclamam:”Não te amo mais”, e vão procurar, alhures, recomeçar a mesma história, beber na mesma miragem, justamente no instante em que a verdadeira fonte não estava longe, quando chega ao fim esse silêncio, essa incompreensão, quando se perdoa o outro por ser um outro e onde enfim se vai talvez poder amá-lo e cantá-lo na sua diferença.

Existem os desertos de areia e há também os desertos da ampulheta o tempo da paciência, instante após instante, descobrir o milagre que fundamenta a nossa aliança. E esse deserto, o que é que nos ensina? Ensina o não apego, a dês-apropriação do outro. 

Amar uma pessoa é renunciar a possuí-la, a fazer dela uma propriedade. Nessa renúncia nos é dada a alegria de ser, de ser-com, sem expectativas, sem cobranças, não, porém, sem lucidez, rigor e ternura.

“Vai para ti mesmo”, dizia a bem-amada ao bem-amado, no Cântico dos cânticos. Vai para o teu deserto, como vou também eu para o meu, lá, dando a volta às dunas, iremos encontrar o oásis, onde, libertados das nossas sedes, seremos o poço que aflora um para o outro

Há também, no coração da relação, o deserto do luto, luto físico ou afetivo – “falte-vos um só ser, e tudo estará despovoado”; falte-vos um só ser, e o mundo é um deserto. Quando se volta para a casa vazia, os corredores parecem não ter fim, e o quarto que ressoava com nossas risadas ou nossas discussões, tem silêncios hostis – “e aquele dos dois que resta, se encontra no inferno.... Aí também precisamos aprender que o outro não nos pertence, mas antes de poder dizer-lhe ainda “vai para ti mesmo”, “vai para a tua luz”, novamente há um longo deserto a atravessar.

O que nos ensinará a morte, senão aquilo que já aprendemos com a solidão? Saber que não existe para ninguém, não ser mais nada, ser apenas um grão de poeira no areal do tempo. E aí posso ser também tentado por miragens, tentar comunicar-me com os mortos, “transcomunicação”, mesas que giram, escritas automáticas, tudo isso, poderia, talvez, proporcionar-me algum consolo. Consolo menor, porém, que o da minha solidão aceita, assumida, pois nessa solidão se descobre talvez o milagre de uma aliança, de uma “relação-outra”, que não é mais vivida sob os modos do espaço-tempo, uma espécie de comunhão dos santos, onde as qualidades daqueles que desapareceram que desapareceu pede que continuemos encarnando sem cessar essas qualidades.

Assim, não é necessárias que eu lamente a bondade, mas preciso vivê-las ainda mais. Não me deixo mais levar pelas asas da sua presença que se desvaneceu, mas estou cada vez mais presente à terra e à vida que guarda as marcas de seu percurso, da nossa passagem comum.

Amar o outro é renunciar a possuí-lo, mesmo morto. É renunciar a que volte, descobrir que ele está sempre aí, em seu silêncio que não nos mete mais medo, em um deserto que se faz hospitaleiro para acolher tudo aquilo que temos de mais precioso, o essencial que nos resta quando nada mais nos resta.

Texto de Jean-Yves Leloup, 

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Feliz dia de Krishna


 seguir, um trecho do Capítulo II - O conhecimento transcendental:
Os ensinamentos de Krishna começam pelo verdadeiro conhecimento da alma e do corpo
Lorde Krishna disse: Você se entristece por aqueles que não são dignos da sua tristeza, mas ainda assim suas palavras trazem grãos de verdade. Elas exprimem a sabedoria do mundo exterior, mas são ainda insuficientes para satisfazer à mente interior. Os sábios, em realidade, não se deixam abater nem pelos vivos nem pelos mortos. (2.11)
Jamais houve um tempo em que todos esses reis, você, ou eu, não existíssemos; tampouco haverá algum tempo futuro em que deixaremos de existir. [1] (2.12)
Assim como a alma adquire um corpo de criança, um corpo de jovem e um corpo de velho durante sua vida, da mesma forma, a alma adquire outro corpo após a morte. Isto é muito claro para os sábios. (2.13)
Ao contato dos sentidos, as formas e objetos dão vasão a sensações de frio e calor, de dores e prazeres. Todas essas sensações são transitórias e impermanentes. Dessa forma, devemos aprender a suportá-las sem nos apegarmos a elas, ó Arjuna. (2.14)
Pois uma pessoa verdadeiramente calma e tranquila, que não se deixa afligir ou apegar por essas formas e objetos, e permanece sempre estável em meio às dores e aos prazeres, se torna apta a trilhar o caminho para a imortalidade. (2.15)
Bhagavad Gita




quarta-feira, 12 de julho de 2017

Raiz do Yoga


Nos meses de maio e junho incentivei os alunos a percorrerem uma jornada na roda do Yoga.  Foram aulas lindas de profunda conexão uma aventura interna que desbravamos juntos, rumo a consciência sagrada do despertar. Segue um resumo da práticas acompanhada pelo livro "A tradição do Yoga de Georg Feuerstein".

"Yoga não é algo que fazemos, mas aquilo que nos tornamos. "Georg Feuerstein.


Raja Yoga - O Yoga Resplandecente do Reis do Espirito
Raja yoga significa Yoga Real, isso quer dizer que a prática do controle da mente para os verdadeiros heróis. Esta prática está profundamente ligado ao tantrismo, já que o mesmo usa bandhas, principalmente o mulla bandha para elevação da energia em prol da meditação.

Jnâna Yoga - A Visão do Olho da Sabedoria
A palavra Jnâna significa conhecimento, intuição, sabedoria. Esta prática de meditação é a abertura da sua própria sabedoria interior para a realização de Si mesmo. Esse é o caminho ensinado nos Upanishads. Os princípios orientadores desta prática é; força de vontade ( iccha) e da razão inspirada ( buddhi). Principais qualidade para viver sobre Jnâna:
1-Discernimento (Viveka), ver as coisas tais quais elas são.
2-Renúncia (virâga), dedicar-se a boas obras sem esperar nenhuma recompensa.
3-Seis Perfeições ( Shat-sampatti)
3.a Tranquilidade (shama)
3.b Controle dos sentidos (dama)
3.c Interrupção ( uparati)
3.d Resignação ( titiksha)
3.e Concentração mental ( samadhana)
3.f Fé ( shraddâ)
4 O desejo de Liberação ( mumukshtva)

Bhakti Yoga - O poder Transcendente do Amor
É uma prática de devoção, a força emocional que purifica e canaliza para Deus. Existem 9 caminhos para realização em Bhakti;
1 A audição ( shravana), Escutar os nomes de Deus.
2 O cantar ( Kirtana), Cantar é a forma de recordação meditativa em Deus.
3 A Recordação ( smarana), Lembrar da fonte sagrada todo instante.
4 O serviço aos pés ( pâda - sevana), Expressar-se pelo ato de prostração ao Mestre, Guru e fazer oferenda.
5 O ritual ( arcanâ), O cumprimento dos ritos religiosos prescritos, especialmente os que giram em torno do próprio altar.
6 A prostração ( Vandana), Apenas tocar a testa no chão.
7 A devoção servil (dâsya), Servir de diversas maneira o sagrado, sendo instrumento.
8 Um sentimento de amizade ( Sâkhya), Aproximar-se na amizade sincera.
9 A oferta de si mesmo ( âtma-nivedana), Sentir Deus dentro de ti m ação.

Karma Yoga - Liberdade na Ação
Karma Yoga é literalmente o Yoga da ação, ter consciência em cada ato. Somos o que somos em consequência do que fazemos. O Mahatma Gandhi, foi u verdadeiro Karma Yogin em ação, trabalhava incansavelmente para o bem e para nação Indiana.

Mantra Yoga - O Som como Veículo de Transcendência
Meditação no som dos mantras, japa mantras de modo introverso e Kirtan extroverso.

LayaYoga - A dissolução do Universo
Ocupação total da mente na meditação, dissolver todos os vestígios de memória, todas as experiências sensoriais e aprofundar-se no vazio da alma.

Kundalini Yoga - Despertar da energia vital
Prática que visa através de técnicas de respiração, ásanas, bandhas, mantra a elevação da energia da kundalini e o despertar dos chakras.

Hatha Yoga - O cultivo de um Corpo de Diamante
Gira em torno do desenvolvimento e potencial do corpo físico em prol de estados de mega lucidez. Essa prática foi criada para facultar a manifestação da Realidade suprema no corpo e na mente humana. Neste ponto o Yoga expressa o ideal do Tantra, que é o viver no mundo a partir da plenitude da realização do Si mesmo, e não o de fugir da vida para chegar a iluminação.